“Três Aboios Diferentes” é o título do show a ser apresentado na próxima sexta-feira, às 21h, no Teatro Santa Rosa, pelos artistas: Zé Ramalho, Jarbas Mariz e Huguinho Guimarães.
O programa constará apenas musicas de compositores paraibanos, e o suporte musical será principalmente de craviola, piano, órgão eletrônico, guitarra e percussão.
Atuarão ainda os músicos Baby, no baixo; Valdir, na guitarra solo; Dikê, no sax e Paulo Bezerra, na bateria. O controle do som ficará a cargo de Eduardo Stuckert.
Os ingressos serão cobrados ao preço de 10 cruzeiros.
Jornal o Norte, João Pessoa, quarta-feira, 24 de Dezembro de 1975
Passeando pelo site oficial do mestre Zé Ramalho fico muito feliz de encontrar pessoas sábias que admiram a obra desse profeta assim como eu. Lançam idéias bacanas, fazem bons comentários e passam belas mensagens aos participantes do fórum.
Por isso vai aqui meu abraço especial a galera que sempre está ativa no fórum do site oficial de Zé:
Imagine um poeta louco que reúna, numa só estrofe, os versos desembestados de um repentista que junta rimas, mas não tem ciência, com a sagrada falta de sentido dosfuturistas russos.
Imagine também que o mesmo sujeito seja também um bruxo e que este bruxo reúne os sons tirados do bojo das violas que ouviu na infância com outros sons eletrificados, que tocou e cantou em sua juventude, num mesmo caldeirão. Mas não pare de imaginar logo agora: pense também que o aprendizado desse poeta e bruxo foi em conjuntos de baile que tocavam covers(reproduções, nota a nota, das gravações de sucesso), para viver.
Então, você terá composto o retrato falado de um artista. Ele se chama Zé Ramalho.
É impossível dissociar esse artista de sua história, quando se ouve o LP Opus Visionário, que a CBS acaba de lançar no mercado. Zé Ramalho é um primo distante de Bob Dylan quando refaz essa rota do mistério de obra que só tem sentido quando ouvida:
Quando Impressa parece apenas um amontoado alucinado de palavras. Mas ele não chegou a Bob Dylan pelos caminhos que nossa geração trilhou: os Beatles e os Rolling Stones. Quem levou Zé Ramalho ao judeu fujão de Minnesota foi um negro maluco que não andava de trem - "que é coisa do diabo" - e que conheceu. a pé todo o sertão da Paraíba: Zé Limeira, o bardo surrealista da poesia oral nordestina.
Não foi com Lennon e McCartney que ele aprendeu os mistérios do absurdo. Foi decorando os versos fescenínos, com rimas e métrica. Mas sem sentido, que Otacílio Batista e Orlando Tejo reproduzem do negrão que andava com rabeca e matulão nas costas contando que Getúlio Vargas foi delegado em Campina Grande e que Dom Pedro II celebrou missa em Piancó.
A herança de Zé Limeira levou o menino feio de Brejo do Cruz ao sucesso nacional já em seu disco de estréia, em 1978. Mas o violeiro elétrico se perdeu nas trilhas do êxito, que só reencontrou com a trilha sonora para o vampiro do Roque Santeiro, no ano passado.
O reencontro do profeta apocalíptico com o renome possibilitou o primeiro grande disco de Zé Ramalho, desde sua estréia estrondosa. Opus Visionário é o LP da maturidade de um artista que quer recuperar a inocência, com quem se vê de novo, oito anos depois de havê-la perdido. O ouvinte precisa entender que o poeta-bruxo apanhou muito da vida e dos esquemas do selvagem capitalismo fonográfico para conseguir destilar, de novo, este ar de terno de linho engomado que o disco tem.
Zyliana retoma, desde os primeiros acordes de O Guarani, os rumos em direção à infância, de que a glória havia desviado. "A foz de um grande rio me arrastou e num toco boiando fui lutar" - canta o profeta apocalíptico com sua voz, marcada pelos sinais mais evidentes da batalha. Agora, o primo de Bob Dylan volta a ser o irmão de sangue de Inácio da Catingueira, em Olhares sem Destino, toada composta em parceria com Téo Azevedo, violeiro da Bahia do Bode e do Norte de Minas.
Netuno, com seu tridente, que o proteja dos novos cantos que a sereia da fama ainda vai espalhar em suas águas. Para voltar a produzir um disco como este, o violeiro elétrico de Brejo do Cruz só basta usar uma bússola, a de seu próprio verso: "O homem já procura agora um caminho que o leve de volta para um lar". Pois. só quando se senta novamente na varanda da casa da fazenda do Avô-hai, noprimeiro sertão da Paraíba, é que ele tira do bojo elétrico da violaum desafio à altura de seu talento. único condão mágico capaz de misturar as dosagens certas para a poção exata dessa fusão fantástica entre o rock e a poesia oral nordestina, cuja receita só ele domina, no planeta da música de consumo do Brasil.
Jornal O Estado de São Paulo em 25 de Setembro de 1986.
Zé Ramalho subirá hoje, às 21h30m, ao palco do ginásio de esportes do Clube Astréa, depois de cinco anos sem ter feito um show montado em João Pessoa, como foi o da época de Admirável Gado Novo.
Hoje o público que lheé fiel - e que é grande – deverá comparecer em massa ao Astréa., para aplaudir o compositor paraibano com antigos sucessos e novos, como é o caso de A N.oite do Lobisomem, da,trilha sonora de Roque Santeiro ~ superexecutada nas emissoras radiofônicas do país.
Como garantiu ontem o produtor Onaldo Mendes - da OM Comunicações, que faz o show de Zé em João Pessoa numa associação com a Gil Programações Artísticas -, tudo na noite de hoje deverá funcionar com perfeição, resgatando ao Astréa a condição de melhor local (incluindo condições de acústica e visibilidade) para realização de grandes espetáculos musicais na Paraíba, já que as experiências verificadas na Praça do Povo do Espaço Cultural sempre redundaram em reclamações generalizadas do público mais exigente.
O presidente do Astréa, Luiz Mendes, informou, inclusive, que somente será permitida, durante o show de Zé Ramalho, a venda de bebidas e refrigerantes apenas em copos plásticos, evitando-se assim a possibilidade de qualquer acidente com garrafas ou latas.
Onaldo Mendes disse que a parte externa do ginásio do Astréa será assegurada integralmente pela Polícia Militar do Estado, que garantiu um esquema especial, ficando a parte interna com seguranças particulares. Já o Detran interditará a rua Princesa Isabel no trecho do ginásio - ou seja, entre a Pedro I e a Monsenhor Walfredo.
Depois de produzir três discos em menos de doze meses, Zé Ramalho lançou o álbum Orquídea Negra, ao mesmo tempo em que prepara três livros para serem editados ainda este ano. Neste trabalho, fruto de uma extensa pesquisa, ele procura encontrar uma linguagem nordestina voltada para imagens representativas de cultura do povo, com a preocupação de não cair em simbolismos estereotipados. "A arte é uma grande aventura para o ser humano". diz ele e talvez seja por isso que se aventure tanto, mesmo quando faz literatura de cordel. "Não tenho nenhum interesse comercial nos meus livros, e qualquer pessoa que quiser recebê-los, a exemplo de Carne de Pescoço, só é preciso escrever para a CBS pedindo o material."
No último trabalho, Orquídea Negra. Zé Ramalho se voltou para parcerias. Isso, segundo ele, se deve ao fato de "depois de ter atravessado um mar de silêncio recebi uma couraça de Jorge Mautner e resolvi dividir meus momentos de criação com outros parceiros. Orquídea Negra é uma imagem do que Mautner pensa de mim, transcrita com firmeza para uma música". O místico, traço marcante em seu trabalho, teve origem na terra onde nasceu (a Paraíba) e em imagens de sonhos. "Meu trabalho às vezes é meio confuso, mas isso obriga as pessoas a ouvirem mais para querer entender. Faz parte da loucura da arte as contradições que vão sendo reveladas a cada passo - essencial para que as pessoas sejam levadas a pensar." O fato de não pisar num palco este ano traduz uma necessidade de vida e produção. Afinal.
como ele' diz, "tudo o que o artista pratica fora do palco soma para a concepção total do seu trabalho".
Estará no Teatro Santa Roza, dia 10 de setembro, o compositor Zé Ramalho da Paraíba, numa única apresentação para o público pessoense. Desta vez com o show: "UM DIA ANTES DA VIDA" partindo em seguida, agora que seu contrato com a Rosenblit foi terminado, para o Rio de Janeiro.
Além de "PAÊBIRÚ", LP duplo de parceria com Lula Côrtes, Zé Ramalho já participou de Vários discos, atualmente circulando por todo o país, com "VIVO" de Alceu Valença, " CORDEL, REPENTE E CANÇÃO" produzido por Tãnia Quaresma.
Grandes momentos marcaram a carreira do paraibano Zé Ramalho dos quais os mais recentes foram: " SOPA DE MORCEGOS", show feito ao lado de Geraldinho Azevedo, em janeiro de 1974 no Rio de Janeiro; "ATLANTIDA", produzido por Onaldo Mendes e Eduardo Stuckert; "3 ABOIOS DIFERENTES", ao lado de Jarbas Mariz e Huguinho Guimarães; participou, ainda, do "Encontro de Violeiros e Cantadores" realizado no Teatro Santa Roza em 1975; e, tambem, de vários consertos de música popular, dentre os quais "Chaminé", realizado em Olinda, e o Encontro Artistico Espiritual do Nordeste, no pátio da Igreja São Francisco - ambos em 74.
Por último Zé Ramalho percorreu a Estrada da Montanha do Sol, ao lado de Lula Cortes, e em seguida o trem " DANADO PRA CATENDE" de Alceu Valença. Voltando pra Paraíba se apresentou na primeira mostra da Coletiva de Música, realizada este ano pelos compositores paraibanos, no Teatro Santa Roza. E agora, na véspera de sua viagem, ele apresenta o show "UM DIA ANTES DA VIDA".
Fonte: Jornal O Norte, João Pessôa, domingo 5 de setembro de 1976.